terça-feira, 8 de maio de 2012

Lugares e Projeções

As vibrações escandalosas do celular indicavam que haviam dado o último “Boa noite” do dia e, ironicamente, o primeiro “Oi”, já que – como de costume passava da meia noite –, na ânsia de ser a última pessoa a falar com o outro, acabavam tornando-se também a primeira.
Um suspiro profundo e então paz.
Na rua vazia ecoava apenas os latidos do cão da vizinha, mas em sua mente ela ainda podia ouvir aquele timbre de voz, baixo e sensual, ao pé do ouvido.
O roncar de moto ao longe lhe arrancou um sorriso e, mesmo em meio à penumbra, conseguiu visualizá-lo chegando – arrastando-se sorrateiramente desde a esquina –, indicando com um sorriso pecador que o único barulho a ser ouvido (por enquanto) era o do silêncio.
Ela desceria, passando pelas escadas pé ante pé.
(Poderia ter sido pelo telhado, mas prezava pela própria vida).
Sentia o gostinho do risco brotando em forma de adrenalina e as veias pulsarem de ansiedade para sentir-se encostada na parede mais próxima, apertada como se a qualquer instante fosse fugir, beijada como se fosse a última vez e, mais ainda, sentir cumprir uma ameaça feita anteriormente de uma mordida em um bico de mimimi;
Tudo isso para não desperdiçar o clima perfeito que os atormentou o dia inteiro, insistindo a todo instante que fora criado para encontrarem-se.
Mas, infelizmente, fora apenas mais uma projeção.
Estavam ambos acordados, em seu lugar de direito, porém (por pura maldade) esse lugar não era o mesmo.


sexta-feira, 27 de abril de 2012

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— Você é uma menininha.
— Perto de você eu consigo ser e você não sabe o prazer que isso me dá.
— Se sentir menina?
— Estar com um homem, eu só andei com moleques nos últimos anos.
           (Tati Bernardi)

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Opostamente semelhantes

Eu olho pra você e te vejo.
Você se sente dolorida, não é? Com um buraco oco onde costumava bater um coração frenético da forma mais sincera e viva possível.
Você sente que foi traída da maneira mais vil e acovardada possível, certo? E sua confiança foi esnobada, seus sentimentos diminuídos...
Eu sei, eu entendo. Vai por mim.
E não te julgo. Nem por não conseguir odiá-lo, nem – por ora – esquecê-lo.
Como poderia odiar o amor (inconsciente ou não) que ele te deu com aquelas palavras bonitas, aqueles olhares, aqueles beijos...?
Como odiar aquele sorriso doce apimentado que só ele sabe dar?
Como odiar a forma como ele te fez mulher de tantos modos diferentes, te fazendo sentir querida e cuidada de um jeito que não acontecia há tanto tempo?
Não dá. Eu sei.
Teu corpo, ainda quente e memoriado, não deixa, as boas lembranças não deixam, ele não deixa... Além do mais, seria como uma erva que odeia a terra! Poderia ela sentir algo tão desprezível por aquela que a faz crescer?
E quanto ao esquecer...
Bom, não é que você não queira, só não pode, não consegue – pelo menos agora –, porque esquecer é o mesmo que perder; aceitar que não há mais sentimento é ignorar a felicidade selvagem e constante, da maneira mais inconstante possível, que ele lhe proporcionou.
O que dá raiva são as flores e os dias de sol, os beijos e o que você tinha sonhado pra ‘vocês’, o nós tão ansiado que não chegou a chegar, certo?
Não me julgue como uma inimiga que veio cantar vitória, rir do seu desespero, deleitar da sua dor...
Somos mais parecidas do que sua vã filosofia pode supor.
Eu já estive em seu lugar, derramei as mesmas lágrimas, me debrucei sobre a mesma tristeza, expressei as mesmas palavras – boas, ruins, revoltas. Todas elas.
Eu já fui você, com a mesma ferida pulsando em carne viva, não me deixando sozinha por um instante sequer, me lembrando que eu não significava mais nada (e nem digo que este é o seu caso) a todo minuto possível. Entretanto Caio Fernando estava certo, depois de um tempo eu ri da dor que sambava em meu peito em seus saltos agulha.
Hoje quem sorri boba, quem se sente nas nuvens, que só pensa em céu azul e dias quentes ou esquentados sou eu, mas amanhã será você, será o seu contexto, a sua história, a sua pessoa... Você deve merecer, assim como – por algum milagre Divino – eu mereci e todos deveriam merecer.
Não se engane que isso não é pena, simpatia, compaixão ou qualquer um desses sentimentos pequenos, tampouco falsidade ou hipocrisia, é apenas uma forma de dizer que hoje é você, amanhã será outra e aí?
Por enquanto pega o violão e vai dedilhar Someone Like You, para se acalmar (ou faz outra coisa com o mesmo intuito), vai aproveitar a inspiração que a dor te traz... Utilize-a da melhor maneira possível.
Porque querendo ou não, não há nada mais poético que a dor que deveras sentes.




quarta-feira, 11 de abril de 2012

Inspiração da madrugada


Era uma sensação bem ímpar a que ele conseguia provocar.
Um misto de paz e inquietação que é difícil até de sentir, imagine de entender ou explicar! Ora eram uma chama incontrolável, um desejo imensurável, o querer de toques precisos que criam uma trilha de fogo que leva para um paraíso (quase) divino; E ora, um mar de meiguice com ondas abestalhadamente mansas, acompanhadas de sorrisos bobos e olhares encantados...
Viviam pairando entre estas sensações extremas que mudavam de quadro em segundos e quase levavam à loucura.
O que os movia?
Não só a vontade um pelo outro, mas o desejo pelo que está adiante e a certeza do hoje, a euforia pelo ‘aqui’;
(Mesmo que para ele houvesse a melancolia do presente que já virara passado, enquanto para ela o presente era uma prévia expectante do futuro).
Deixando o medo um pouco afastado, aproveitam-se, pois nunca se sabe o que virá na próxima página do romance policial que andam vivendo e nem as mais próximas testemunhas oculares captariam a subjetividade complexa de “tão esperado” clichê.
Só resta, por hora, fechar os olhos e reviver – ao menos em pensamento –, uma noite em particular aonde partilharam o mesmo chão, o mesmo calor, o mesmo sorriso e a mesma sensação de, por algum motivo, aquela proximidade ser tão certa quanto necessária. 



quarta-feira, 7 de março de 2012

Addicted


















Uma dama refinada e sofisticada da alta sociedade. Por fora.
Por dentro, uma mulher que precisava de algo além do material comprável;
Queria atenção, diversão.
Um vagabundo, fácil, fraco, homem. Por fora.
E por dentro.
Ou seja, tudo que ela poderia e cogitaria querer e precisar!
E, apesar das diferenças tão eminentes, muito em comum, mas uma em especial: uma grande necessidade,
de se verem, de se tocarem, de se terem, de ser um para o outro - independente de o quê -.
Eram uns putos. (Ainda que ela, apenas superficialmente)*
E viciados.
Em olhos, boca, mãos, palavras, sorrisos, lembranças... Tudo.
Necessitavam de uma reabilitação, sim, antes que fosse tarde, mas que lugar procurar se eram eles mesmos a própria rehab?
Eram vício e libertação em um só corpo e ainda tanto para conhecer em meio às matérias intelectualmente compartilhadas;
Ela expert da teoria, ele perito na prática e mais uma vez se completavam.
Continuariam assim.
Usando sua literatura particular para expor seus pensamentos, como um laboratório secreto, egoísta e único de sua própria NZT.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Projeção


Era um artigo sobre filosofia, com certeza. Ou algo que ele certamente estava devorando com a mente, deixando-a fluir, viajar – como gostava de denominar -.
Estava tão concentrado absorvendo conhecimentos que não ouviu seus passos passeando pelo quarto, até que um sibilo profundo de uma respiração o fez olhar para o lado e lá estava ela;
Ainda ofegante, ainda suada, ainda desejosa, vestindo a blusa dele pelo avesso e com os cabelos bagunçados caindo em leves cachos sobre seus ombros – os quais há pouco haviam sido apertados por mãos macias e exigentes -.
Ele conseguia ver seus olhos através dos óculos que lhe davam um sublime tom intelectual e incrivelmente sexy e neles havia uma certeza inquietante, instigante, independente...
Nem lembrava mais sobre o que estava lendo.

A passos lentos ela aproximou-se dele, sem pestanejar empurrou o teclado da máquina para seu devido lugar e, em momento algum, desviando o contato visual, entrelaçou-lhe com as pernas fartas.
Ele só teve o trabalho de puxá-la mais para perto quando sentiu-a brincar com o lóbulo de sua orelha e então já estavam rendidos, entregues ao jogo irresistível de possuir um ao outro. O yin e o yang fundidos, o romantismo lido e o erotismo vivido, o equilíbrio desconexo em mais um momento de prazer.


Entorpecida


No início era ela.
Os planos, os sonhos, os medos, os sentimentos... Mas não mais.
Não apenas ela, mas eu.
Pois somos iguais. Lírico e eu-lírico em uma mesma sintonia, simplesmente porque chega um momento em que não dá mais para ignorar o bater de asas das borboletas.


[...]

A cada passo a certeza de estar entrando em um campo movediço, porém - ainda que exista o medo - há também um consolo: Nossas asas.
Ainda que não esteja fortes o bastante e precisem de muito exercício, estão crescendo. Elas nos livrarão do perigo, nos guiarão para a direção certa ou para onde quisermos ir! São nossas. Somos nós. Isto não vai mudar.
Como chegamos até aqui é um mistério, o que sei é que quero sempre este ardor dentro de mim, aquecendo minhas veias, entorpecendo meus sentidos como uma droga; Meu tipo favorito de droga: A que te trás as melhores sensações, te proporciona as melhores viagens, te provoca seguidas overdoses e você continua vivo e querendo mais.

E quando, por algum motivo - seja ele insegurança ou TPM -, eu pensar - por míseros segundos - que estou esfriando, relembrarei teu sorriso, relerei teus escritos! Será o bastante para trazer-me de volta, o suficiente para me fazer buscar mais de ti.

Ah, terno ladrão de pensamentos e inspiração, nunca hei de te contar  sobre as inúmeras vezes cotidianas que cito seu nome, revejo tuas mensagens, (re)lembro teu toque...
Nunca poderás ver meu sorriso imbecilizado ao ouvir sua voz surpreendida em uma chamada durante a madrugada ou o estranho rufar de tambores que ouço ao ouvir-te desejar "boa noite" ao teu amor;
E, principalmente, em hipótese alguma deverás imaginar que pelúcia alguma se compara ao teu calor, nem travesseiro algum aos teus braços.
Só podes saber o bastante, a ponta do iceberg, três letras do alfabetário. Nada mais! Para não fazer minha casca de canceriana ser desnecessária, para não expor meu muro - tão duramente construído - ao ridículo.
Entretanto por conter um lado angelical yang tão percentualmente ativo, te presentearei uma dica:
Junta teus retalhos um a um, faz uma corda, escala os malditos tijolos.
Fiquemos ambos protegidos. Do mundo, mas não de nós mesmos.
Quem sabe assim não estejamos criando uma garantia para nossa promessa? Nunca (nos) perder(mos).

"Ninguém venha me dar vida,

que estou morrendo de amor,
que estou feliz de morrer (...)"
Já dizia Cecília Meireles.